Wednesday, December 13, 2006

Ele me perguntou por quê

- Los Hermanos. Água. Mãe e medicina. Poesia. Filosofia. Como deixar de fumar e ser um homem de negócios;

- Blusa Pólo azul perguntando onde estava meu (ex-)namorado;

- Eletrola. A Flor. O beijo engraçado. Minha pele sensível por causa do creme anti-acne. Tua barba;

- Teu sumiço. Teu reaparecimento virtual;

- O filme que não assistimos. Tu tentando adivinhar a minha altura. O sorvete politicamente incorreto. Eu te deixando na parada de ônibus. Tu no ônibus jogando um beijo e um "tchau";

- Teu apartamento. O leitão e a joaninha. A poltrona. O desktop coloridíssimo. The Verve tocando. Tu cantando de olhos fechados a música que eu apaguei depois. tu me chamando de pecado. Eu citando Legião Urbana para me explicar;

- Setembro e outubro;

- Novembro. O encontro virtual. O telefonema. O encontro real. O chiclete sabor de canela. Eu não querendo tirar foto. Tu posando ao lado do palito de fósforos. Batistão. O amanhecer do dia;

- Discussões, confusões, medo, insegurança minha;

- O telefonema. O pedido. O "sim". Tu na porta do apartamento. Eu na porta do elevador. "Se cuida". O meu sorriso;

- Blusa 'sábado à tarde'. Minha mãe na sacada dando "tchau". Bob's. A batata frita suicida. Big Music. Demônios. Eu pensando em te comprar. Tu pensando em terminar;

- Racionalização. Negação. Loucura. Criando personagens;

- A outra. Eu a chorar. A outra a me infernizar. Tu a me odiar;

- Ela foi embora. Tu voltastes. Eu longe, mas feliz;

- Tu com outra, mas perto de mim, virtualmente. Sim, contento-me com pouco;

- O amor inútil da ema...


20.06.2005

Tuesday, December 12, 2006

A Carta

Fazia tempo que eu não escrevia uma carta. Eu achava meio retrô esse negócio de escrever, ir ao correio, pagar e esperar uma resposta, que poderia chegar em uma semana ou um mês. Também poderia não chegar, ser extraviada e parar em casa de uma velhinha abandonada esperando pela morte, e que consequências isso daria, não posso imaginar.
Tudo isso pra dizer que eu finalmente arranjei um papel qualquer, uma caneta Bic, passei perfume nas mãos, e escrevi o que habitava em meu coração. Às vezes, parava, pensava, e finalmente, rasgava a carta para refazê-la. Além da letra horrível (letra de médica irremediavelmente feia), o texto desconexo, sem vírgulas, com muita emoção e pouca técnica.
Agora sim!
Nome da cidade, vírgula, dia, mês e ano, ponto final. Assim foi a primeira linha escrita no canto esquerdo do topo da página. Depois o vocativo e enfim a mensagem. Assinatura na base direita da página e uma borboletinha desenhada para terminar.
Muitos sorrisos desenhados. Alguns adesivos no envelope. E a ansiedade de uma resposta após postada a carta.
A recompensa veio não tão breve, mas na hora certa.
Com a notícia poética de que a pessoa dormiu abraçada com minha carta e que havia guardado a foto três por quatro - que também viajou dentro daquele envelope perfumado e enfeitado enviado há duas semanas - dentro da carteira, para que todos os seus amigos também pudessem apreciar.
O amor é assim, singelo como a carta. Sem tecnologias, cheio de formalidades, mas que podem fazer um sorriso brotar em um rosto triste, num piscar de olhos.

03.04.2004

Texto Para Narcisa

Texto para Narcisa

Eu a observei a noite toda com olhos de gato em uma presa. Chegou à festa escoltada por três amigos. Era bela, mas nesta noite, estava mais ainda. Eu, sempre acostumado a admirar sua beleza por detrás dos seus óculos de grau com lentes grossas, e o cabelo preso em um coque, admirava cada vez mais sua metamorfose para a noite.

Exibia com charme os seus cabelos escuros, longos, levemente ondulados. O olhar parecia irradiar energia térmica, e o sorriso iluminava quem era exposto a ele - basicamente seus amigos. Encontrou muitos deles e a cada encontro, muitos sorrisos, muita luz, muito calor emanava dela.

Porém, uma pessoa causou-lhe exatamente o oposto. Eu bem que reparei, em uma hora em que conversava animada com uma amiga, perto da porta de entrada, o que aconteceu quando ele chegou. Não era nada demais. Um fedelho branco, alto, barbudo, com o cabelo meio arrepiado e que parecia estar muito acima do peso, chegou de mãos dadas com sua namorada, também um tanto estranha para o meu gosto, usava o típico óculos indie - que parece ser a tendência das pessoas daquela tribo - e tinha uma beleza bastante escondida para eu ter paciência de procurá-la.

Minha musa pareceu entrar em pane. O calor do olhar esfriou e o brilho do sorriso se apagou e deu lugar a um sorriso amarelo. E fugiu para o lado oposto do lugar, dançou para espantar o que lhe incomodava. Dançava de olhos fechados e com a mesma intensidade da música. A tática deu certo, pois recuperou-se no tempo de três músicas.

Encontrou um outro amigo na pista de dança, que parecia especial - cheguei a ficar com ciúmes - mas não aconteceu nada demais nesse encontro. Ela o olhou e ele sorriu, como se já conhecesse. Ela foi até lá, cochichou-lhe ao ouvido e ele deu uma gargalhada, enquanto os amigos dele, morrendo de inveja, zombavam do menino (um baixinho entroncado, que também usava os famosos óculos indie daquela moda esquisita). E saiu de lá, como uma vitoriosa.

Contudo, ao descer as escadas para o porão, o fedelho gordo abordou-lhe. Ela parou de sorrir (momento raro na noite) e cumprimentou-lhe completamente gelada. Deu as costas para o menino, enquanto ele lhe beijava a mão com uma expressão bizarra de pesar. Desta vez não se abalou muito. Acho que já estava preparada para eventuais reencontros com ele durante a noite.

Ainda rolava um concurso tosco, de air-guitar. Ela torcia com muita animação para o magrelo, de camiseta amarela, gritando e aplaudindo, com um espírito bastante juvenil, não ligando para a tosqueira do concurso. Enquanto isso, o gordo branquelo estava de longe, a observar-lhe, exatamente como eu. Onde estaria sua parceira naquele momento, não sei dizer. Estava muito ocupado vigiando as asas coloridas de predomínio cor-de-rosa da dançarina vestida de preto e branco.

Ao encontrar um famoso blogueiro, cumprimentou-lhe com um sorriso e um aceno, ele estacionou diante dela, fez-lhe o sinal da cruz como se a benzesse e a chamou de Jesus Cristo! Ela voltou-se pasma para um amigo, não compreendendo a situação.

Foi embora cedo, ainda nem era cinco horas da manhã. O amigo especial (o baixinho de óculos) viu que já ela ia embora, despediu-se com um sorriso e uma piscadela. Ela pareceu espantada, sorriu de volta e comentou alguma coisa com uma amiga.

Olhou-me apenas, uma vez, para conferir se estava tudo certo. Até sorriu para mim no começo da festa. No entanto, esqueceu-me no decorrer da noite. Na verdade, não me necessitava mais. Eu é que sempre preciso dela refletida em mim.

Ass: Espelho.

29.01.2005